segunda-feira, junho 19, 2006

Vinho chileno e Edith Piaf.

Acabei de chegar do apartamento da Maria Julia! Ia só dar uma passadinha rápida pra pegar umas fotos que ela tinha revelado, mas acabei ficando a tarde inteira. Menina, você é fantástica. Se me arrependo de alguma coisa foi de não ter me aproximado de você na época em que estudávamos juntas. Acho que tudo seria bem diferente de como é hoje...
Enfim. Muito obrigada mesmo, as fotos da nossa festa ficaram ótimas! No próximo post colocarei algumas aqui, sem dúvida!

Helga Schneider e Hildegard Leich com outras enfermeiras

E mais um trechinho do livro:

(...) Ali estava Hildegard, rígida, o rosto crispado, o corpo perfurado por balas. Balas essas, alemãs, que deveriam ter o inimigo como alvo. Não conseguia tirar os olhos dela, lembrava-me dos momentos que passamos juntas. Naquele cadáver jogado no chão era difícil reconhecer a mulher alegre, que falava alto, contava piadas e histórias dos seus namorados. Como alguém podia desprezar a vida humana desta forma? E por que ela? Agira tão somente movida pela compaixão, tentando ajudar duas crianças a fugir deste inferno. Não me conformo. Não há como aceitar.

Não vejo mais nada de superior nos arianos. Tento conter as lágrimas, não quero que Norbert me veja chorando. Ele and muito preocupado, as notícias que chegam de todas as frentes não são animadoras. Esta guerra que começara como um capítulo glorioso da história alemã se transformou em um pesadelo. Um terrível pesadelo como o campo de Belzec.

O que fazer? Ficar e se torturar a cada momento, a cada dia, a cada assassinato? Ficar por quê? Por Norbert? Será que gostaria de passar o resto de minha vida ao lado de alguém que se compraz com a morte alheia, que encara a carnificina brutal como um ofício, como uma profissão qualquer? Não, não, não, preciso sair daqui. Fugir para bem longe, esconder-me em um lugar escuro, tapar os olhos e os ouvidos. Esquecer. Poderia esquecer? (...)

...

Não tenho muito o que dizer... hoje me sugeriram diversos títulos. Gostei realmente de alguns, mas só irei defini-lo mesmo quando tiver terminado de escrever. Por hora, fiquem só com os trechos já aprovados pelo editor. Gostaria muito de saber a opinião de vocês sobre o andamento do livro, então deixem comentários! =)


Soldados russos em Stalingrado

(...) 20 de novembro de 1942. Enquanto escrevo, não ouço um único ruído; todos dormem. Pelo o que pude ouvir nas conversas durante o almoço, o exército alemão tem sofrido freqüentes baixas em Stalingrado. O inverno russo os está destruindo, e percebo uma onda de desespero se espalhar entre os oficiais em Belzec. Hoje, vi soldados arrastando corpos de judeus ao longo da estrada de ferro. Já certos da derrota, procuram não deixar vestígios dos extermínios... Eu já não suporto mais. O cheiro de carne queimada me enoja. Sinto que tenho a obrigação de levar meus cadernos a público, não posso deixar todo esse horror ser apagado pelo tempo.

Mas Norbert, meu amor... Não posso traí-lo. Não consigo. Aqui, chamam-lhe de “O Mestre”, e eu, Helga, sou a única pessoa a quem ele confiou sua identidade. Ele acredita em mim... Deus, como posso amar um homem tão cruel? Como posso amar um homem que sente prazer ao ver o sangue de outro espirrar em seu rosto? E como pode ele me amar? Como há amor nele? A situação da Alemanha também me preocupa. Temo por Norbert. Ele tem estado cada vez mais abatido, sentindo-se inútil, incapaz de ajudar sua nação e seu líder (...).

E hoje eu sei, sem você sou pá furada...

Meus dias no trabalho nunca foram tão estressantes como ontem. Quando finalmente saí, eram sete horas da noite e tive que encarar aquele engarrafamento louco da Pinheiro Machado. Odeio esses dias em que parece que tudo dá errado de propósito. Quase tudo. Eu já estava há 30 minutos sem mover uma roda, quando tocou meu celular.
Era o Andrei me chamando pra ver um filme. Eu disse que não tinha tempo, precisava ir pra casa. Ele respondeu que se eu não fosse, iria me buscar. E foi mesmo. Parei o carro num estacionamento e fomos andando até o apartamento dele. Dez minutos de filme e dormi. Ele foi até o quarto e pegou um lençol; o verde, claro. Eu não estava com frio, mas deixei que me cobrisse. Senti saudades da época em que passava o dia inteiro lá, enrolada no lençol verde...


Quadro do campo de Belzec, Polônia


(...) Norbert levou-me para abertura da “Schleuse”, uma passagem que fazia conexão do Campo 1 com o Campo 2. No primeiro, havia rampas com 40 vagões e duas barracas para as pessoas se despirem, uma para mulheres e crianças e outra para homens.Como Norbert era supervisor do local e eu, sua secretária, ficávamos no Campo 1. Através da “Schleuse”, o terrível conteúdo do Campo 2 me fora revelado.Nada do que vira até então poderia ter-me preparado para o que iria encontrar. Sabia que era necessário, para a construção de um povo verdadeiramente alemão, a purificação de nossa etnia, com o afastamento daqueles que, menos favorecidos pela Natureza, misturariam seu sangue ao nosso, manchando a raça ariana. Entretanto, jamais havia parado para pensar sobre a forma como isso se daria. O que vi me chocou.

O Campo 2 incluía câmaras de gás e largos poços, com cerca de 6 metros de altura, para a cremação. Nessas escavações eram jogados os corpos, embebidos por um espesso óleo, e queimados. Com grande orgulho, Norbert mostrou-me sua mais nova aquisição: uma máquina para triturar ossos. Às vezes, fico pensando que Norbert é um pouco contraditório. Quando está comigo, me sussurra doces palavras de amor, e hoje pareceu totalmente insensível e indiferente à minha reação a seus atos grotescos. Para homenagear-me, fez a nova máquina funcionar e, eloqüentemente, contou como um corpo podia virar pó em questão de segundos.

Entre essas instalações, duas barracas se erguiam; uma para o alojamento, e outra para a cozinha. Essas barracas estavam envoltas em uma espécie de névoa pesada, devido ao óleo queimado. Escutei Norbert falando que os vidros da janela da cozinha eram novos, nova tecnologia, mais resistentes. Enquanto ele falava, passei a mão pelo vidro, e senti a sujeira. Era algo preto. Gordura, gordura humana. Não resisti. Enquanto Norbert discursava sobre a alta tecnologia utilizada no campo de trabalho Belzec, encostei-me na parede e vomitei. Atravessei correndo a “Schleuse” e cheguei ao meu alojamento. Joguei-me em minha cama. Ainda tento me convencer de que todo o horror que presenciei não é minha culpa, nem de Norbert. (...)

quinta-feira, junho 15, 2006

Minha manhã foi bem cansativa. Acordei, tomei café, dei uns telefonemas rápidos e mandei o livro pro editor. O processo de criação de um livro não é essa maravilha que todos pensam não. É MUITO cansativo, minha gente. Mas não posso dizer que não valha a pena. Mesmo que não faça sucesso (o que é esperado, já que as pessoas só têm se interessado por ficções tolas como o Código da Vinci – não, Vinicius, desista, no meu livro não tem nenhuma mensagem criptografada nem nenhuma seita maluca), a sensação de dever cumprido – por mais brega que isso possa soar – já me será suficiente.


Mapa da Operação Barbarossa

(...) Eram 5h da manhã quando ele telefonou. Mandou-me ligar o rádio. O jornal anunciava que a Alemanha de fato invadira a União Soviética; falava-se em uma "Operação Barbarossa". Norbert contou-me que Hitler planejava liquidar o país rapidamente, antes da chegada do inverno. Enquanto falava, podia notar a satisfação em sua voz. A genialidade do líder alemão o fascinava. Tentava inutilmente disfarçar, mas sentia-me atraída pela forma apaixonada como defendia a causa nazista. Sua determinação era inspiradora, e suas ambições bradavam pelo poder. Norbert estava predestinado a algo muito maior e tinha plena consciência disso. (...)

De volta! =)

Pois é, galera, voltei à vida de blogger. Depois de seis meses de pesquisas, entrevistas e visitas a bibliotecas cheirando a mofo, já estou na metade do livro. Eu folheio, releio e ainda não acredito que em breve ele estará em minhas mãos. Acho que a grande maioria sabe que me inspirei no diário da minha avó, certo? Pois bem.

Minha vó Helga, que Deus a tenha, foi simpatizante dos ideais nazistas e pertenceu, inclusive, à Juventude Hitlerista. Vovó nunca contou muitos detalhes de sua ida à Alemanha em 1941, e por isso mesmo sempre achei que ela havia ido pra guerra pelo Serviço de Saúde da FAB. (Um pensamento natural, já que muitas enfermeiras brasileiras foram mandadas para a Europa nessa condição).

Mas a maior surpresa foi mesmo o seu romance com um alemão, major da SS. No diário ela conta que, ao chegar à Alemanha, conheceu Norbert Reinhardt e foi trabalhar como sua secretária num campo de concentração na Polônia. Lá, viu de perto todo o horror do regime nazista e, todas as noites, escrevia sobre as barbaridades feitas pelo exército alemão. Ela voltou pro Brasil em junho de 1943, disposta a publicar suas denúncias, mas desistiu ao saber que Norbert havia se matado. O diário ficou esquecido num velho casarão em Campos dos Goytacazes desde então.

No ônibus de volta pro Rio, comecei a pensar em como essa história poderia render algo realmente bom e fui fazendo pequenas anotações. Contei pro Marcos minha idéia, que adorou e logo se propôs a me ajudar com as pesquisas históricas. Não queria simplesmente publicar um livro de memórias; baseei-me nesses relatos não para narrar o típico amor destruído pela guerra, mas sim um amor que existiu em função dela. E acho que consegui. Os comentários têm sido bem positivos, estou prestes a fechar tudo com uma editora. Gostaria de saber a opinião de todos e, por isso postarei alguns trechos do livro aqui no blog.


Um beijo,

Clarisse